Faça. E depois? Morra!


– Isto não é algo para se jogar ao vento. E você sabe disso, caro amigo.

O Rapaz estava de pé diante dele, que estava sentado num banco que dava vista para o mar. O rapaz sentou ao seu lado. Estava de terno preto e camisa branca, o comum, e óculos escuros. Seu cabelo não era exatamente curto, tinha um pouco de volume. Era liso, totalmente liso e castanho escuro, brilhante. O moreno finalmente tirou os óculos e devolveu um pequeno envelope ao amigo. Ele olhou de canto e reclamou algumas palavras, mas pegou o envelope novamente.Finalmente respondeu:

– Então você está falando para eu voltar ao inferno. E você sabe disso, caro amigo.

– Não podemos sair dele, Jorge. Ou você faz, ou você é morto.

– Tem de haver. Tem de haver, amigo. Quero ser livre, quero ser feliz. Não vou mais trabalhar para esses caras. Por isso, tenho orgulho de jogar esse pedaço de papel ao vento – Ele o fez, levantando, rasgando e jogando os pedaços ao vento. Voltou a falar, ainda de pé – Tenho apenas uma chance. Eu não vou desistir dela dessa vez, Tiago – Jorge suspirou e olhou para o mar por alguns segundos. Se voltou para o amigo e terminou – Obrigado por tudo e me deseja boa sorte.

Tiago apenas o viu sair dali. Pegou um cigarro de seu bolso do terno e o acendeu com estilo. Olhou para o pôr-do-Sol. Como se estivesse numa conversa informal, falou, quando já não havia mais ninguém para ouvi-lo, claro, só o pôr do Sol:

– Não há como desejar, caro amigo. Existe só um fim. A morte.

E ele continuou a tragar o cigarro.

**

Dois dias se passaram e seu celular tocou:

– Tiago, vá limpar as coisas da casa do Jorge.

– Já está feito?

– Sim. Estou mandando você lá por estar mais próximo do local. Como o corpo já está na casa, aproveite e arrume todas as coisas dele. Qualquer coisa, ele foi para Espanha. Tenho que desligar. Vá já para o local.

“A rapidez é tão grande que até viagem para Espanha eles já arrumaram” – Pensa Tiago.

O moreno pegou seus equipamentos e foi até o local. Já em frente ao corpo, não houve reação de asco, nojo. Ele estava sereno e frio. Ele abaixou até o corpo e viu as balas no amigo. Observou com seus olhos castanhos claros que o corpo não foi morto ali e sim que foi deixado ali após a morte, para deixar tudo mais discreto. Olhou para o amigo e falou, como se ele ainda estivesse vivo:

– Não disse que não era pra jogar aquilo ao vento? Não há como escapar. Não estamos em filmes, nem conto de fadas. Isso aqui é a realidade, amigo, e quem não suporta, morre. Vejo que você não aprendeu a lição – Ele acendeu outro cigarro e o tragou lentamente. Extremamente calmo, terminou, dando às costas para o corpo, e observando o recinto para ver por onde começava – Estamos aprisionados. Pode-se dizer que somos os dêmonios em terra. Você era uma boa pessoa. Agora você só é uma alma liberta.

Ao terminar, olhou de volta para o corpo e comentou rindo:

– Se isso realmente existir, claro!

Parou. Tragou profundamente  o cigarro. Olhou para baixo e riu, mas dessa vez de desgosto. Um riso medonho.

Parou no instante seguinte e voltou ao trabalho.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s