Fotografia. Neve? Não, fotografia


Odisseu. Um nome muito esquisito para um reles fotógrafo. Mentira, ele não é um reles profissional. Ele é um dos melhores da Itália. Descrevê-lo é fácil. Cabelos encaracolados, de um enrolado bem marcante e escuro. Mas era curto, obviamente, senão o atrapalharia na visão de seus olhos profundamente negros, mas atentos, sempre. Isso era o mais impressionante. Com as coisas simples, ele fazia fotos incríveis, nunca vistas pela sociedade, ou no mínimo, nunca discutida. Eram chamativas, de reflexão. Nas cidades por aí a fora na Itália, as pessoas paravam para vê-las. Não estava fechado num centro de eventos, numa exposição, estava nas ruas, em ônibus. E assim, ganhou fama. Porém…Por que?

O moreno estava agachado num parque de uma cidade pacata, pacata ainda acho uma palavra fraca. Se tivesse  setenta mil habitantes, acho que seria muito. Estava no inverno, a cidade não é um ponto turístico pra nada a não ser o parque minúsculo que fica cheio de neve, deixando essa estação do ano com algum requinte. Nada sofisticado, Nada diferente de outras cidades da Europa. Não havia o que se interessar numa cidade…Tão..Sem graça dessa.

Estava com sua câmera, que também não era de ultima geração, era apenas uma moderna de grande utilidade. Isso era estranho pra época, em plena 2025, ter uma câmera de 2010 era um tanto atrasado. Mas o que ele sempre dizia era: Prefiro a realidade à artificialidade da tecnologia de hoje. Gosto dela em muitos aspectos. Só que pra que ter uma câmera que na verdade é uma tela praticamente invisível que tira fotos perfeitas? Por acaso o mundo é perfeito?

Ele falava isso em três línguas, Italiano, Inglês e seu idioma natal, Português. Sua jornada começou no Brasil, claro! Mas ele nunca foi reconhecido lá. Seu verdadeiro rumo foi Portugal. Lá ele se estabeleceu e conseguiu uma oportunidade numa revista de moda da Itália. Não era fotos de modelos que ele conseguiu sua fama. Tirava fotos de qualquer coisa. Usava a criatividade pra deixar a cidade de uma forma suave, feliz, esperançosa.

Eu soube que muitas pessoas choraram ao ver uma foto dele em Napoli. Uma garota de guarda chuva, que tropeçou na poça d’água. Sua roupa estava suja, encharcada, seu guarda chuva ficou destruído com  queda, ela o segurava, por sinal. Estava perdida, olhando pra si, com expressão de dor, choro, vergonha, inconformação. O que tocou as pessoas, não foi essa situação, e sim um homem que lhe estendeu a mão para ajudá-la a andar. É, no meio da chuva forte. Ele não estendeu apenas por educação, por achar ela bonita. Era um sentimento que não tem explicação. Ele sorria, mas não era de deboche, era de compreensão, de ajudar, de gostar de fazer isso. Havia sentimento. Então…Por que? Porque estar numa cidade qualquer, uma cidade onde não há nada. Onde ninguém o veria, o acharia, e onde suas obras não seriam nada mais do que simples fotos. Uma cidade interiorana que não tinha muito com o que se preocupar com coisas “bestas” como essa. Povo conservador, de certa forma, atrasado.

Ele não estava sozinho, uma garota. Branca demais. Confunde-se um pouco ao ver neve e ela, senão fosse o sobretudo roxo. Estava sem maquiagem, parecia triste com a situação. Ela estava atrás dele, apenas observando-o tirar as fotos. Havia apenas neve e rosas, neve e gramas surgindo uma hora ou outra no chão, neve e as grandes árvores que perdiam um pouco de suas cores. Um plano branco. Parecia ser até melancólico. O que tirava isso era quando fitava seus olhos. Olhos verdes, de um verde escuro, sem muito brilho. Misteriosos, mas doces. Esses olhos não entendiam a situação, estavam inquietos, insensatos. Seu cabelo ruivo estava preso à boina preta que usava e em seu pescoço havia um cachecol branco para se esquentar. Queria fugir dali, queria que ele a visse, que ele voltasse a ser o Odisseu Assis Próspero. O conhecido Odi nas metrópoles da Itália. Ela ficou irritada de ficar esperando ele tirar fotos de branco e gelo por 20 minutos e falou:

– O que queres afinal, Odi?

Ele ficou mudo. Apenas ouvia o barulho das tiragens de foto e via alguns flashs que se confundiam também com a grande quantidade de neve.

– Odi, ouça-me, tentes fazer o que lhes digo. Fotos de gelo e branco não lhe farão ser bom de novo. Porque estais aqui?

– Julieta! – Falou alto, e logo ficou mudo de novo. O sotaque era totalmente italiano, mesmo o nome tendo de ser pronunciado com português de Portugal, afinal, Julieta era portuguesa.

Ela tomou um grande susto e bufou de novo. Ele levantou, finalmente, nem eu sei como ele aguentou ficar agachado tanto tempo. Virou-se e abriu um grande sorriso amarelo:

– Pronto!

Ela resolveu se conformar. Era impossível fazê-lo mudar de opinião e jeito nessas situações. Ele a fitou por alguns segundos e continuou a falar:

– Só preciso de um pouco de férias, não estou sem inspiração, só acho necessário me distanciar do mundo. E Julieta – dessa vez com o sotaque certo – É tão legal falar com você em Português. Adoro seu sotaque estranho, com português de meu país e do seu e do italiano.

Ela fez uma careta, mas logo sorriu, sem mostrar dente algum, ela era meio durona.

-Mas até quando ficaremos aqui? Não avisastes que voltaria dia 10?

– Sim, voltaria, mas eles me deram mais uma semana. Eles dizem que me falta inspiração, que eu me perdi um pouco. Que regredi. Você também acha isso?

– Tu estais aqui por ter medo? Tu não parastes de tirar fotografias desde que chegastes. Eu não acho, tu deves fazer o que teu coração pede. Eu lhe acho um grande fotógrafo. Só não ficaria tirando fotografias de neve. É comum, banal, melancólico. Tu nunca foi assim. O que queres afinal?

– Sabe, Julieta, eu nunca pedi para que você me seguisse, desde Portugal. Você sempre acreditou em mim e no meu talento. Obrigado. Quer continuar ao meu lado como assistente?

– Odi, seu bobo, é claro que ficareis ao seu lado. Mesmo eu achando tu um tapado de vez em quando, meu trabalho é este, e não largo mão dele.

– Eu acho que essa “gíria” “largar mão” você pegou de mim – Logo ele sorriu, caçoando da ruiva.

Logo depois de falar, ele viu que havia uma mãe passando com seus dois filhos pela calçada. Tentava ir rápido por causa do frio. Ele logo saiu correndo e pediu licença à moça – Que parecia ter seus 38 anos – e abaixou pra conversar com os dois pequenos. Julieta ficou de longe, apenas observando, não conseguia ouvi-los direito.

Conversa vai e conversa vem com as duas crianças, Odisseu descobriu que um se chamava Sérgio e o outro Francesco, gêmeos não idênticos, com 9 anos. A Moça parecia estar brava mas em um instante aceitou a simpatia e delicadeza de Odi com seus filhos. Ela chegou a rir duas ou três vezes. E por fim, houve algumas fotos. Ele agradeceu a paciência, entregou um chocolate que tinha em seu bolso do sobretudo –  De cor perolado, talvez um pouco mais forte que isso -, e deu às crianças.

Antes de irem embora, o moreno falou com Sérgio, no ouvido, para que apenas ele ouvisse, e apontou para Julieta. O garotinho foi correndo na sua direção. Ela achou isso muito, muito estranho e ele pediu para que ela abaixasse. Meio ressabiada, tentou contestar mas viu que era em vão, o garoto era fofo demais para ser escorraçado.  Abaixou-se e Sérgio falou, em italiano, claro, mas nesse texto, serei um narrador legal e deixarei traduzido – Era mais fácil dizer que eu não sei Italiano, o que é verdade:

– Aquele fotógrafo disse que quer entregar isso pra você.

Era uma caixinha de anel meio estranha, velha. Ela abriu, mas estava vazio. O menino voltou correndo para as mãos da mãe, rindo. Julieta olhou confusa para Odi. Qual o sentido?

Ele agradeceu às crianças e à mãe, que foram embora no mesmo momento. Ele olhou naqueles olhos verdes. Estavam nervosos, claramente. Ele adorava vê-la assim

– Tu só fizestes isso para conseguir a foto, não é, Odi?

Ele riu muito dessa vez. E antes de Julieta pronunciar qualquer palavra naquele sotaque que ele achava lindo, falou:

– Viu? Eu não mudei! Não estou perdido, não sou diferente de antes, não estou cansado do mundo! Ou você acha que eu não tirei fotos boas aqui?

– Claro que tu tirastes boas fotos, principalmente da situação embaraçosa que me deixou passar.

– Consegui sim boas fotos. Mas você não queria me perguntar uma coisa?? Vamos Julieta, pergunte-me!

Ela olhou, confusa com a exclamação. Ela tinha uma pergunta? Fixou-se no rosto dele. Ficou sem entender por algum tempo. Sorriu fracamente, já sabendo o que era. Olhou para as árvores, para o parque. Que agora, até que ficava bonito. Sorriu novamente não acreditando pelo que estava passando.

– Vamos, Julieta, faça a pergunta!

– … Odi, o que queres, afinal?

Ele sorriu. Nesse momento, Julieta viu a essência, o verdadeiro Odisseu. Ficou aliviada por vê-lo de volta. Percebeu algo estranho, ele mexia em seu bolso mais complicado do sobretudo. Ele finalmente tirou e escondeu em suas mãos.

– Então, o que eu quero, e que faz um tempo que eu venho querendo e também percebendo o seu lado. Julieta, o que eu mais quero, não é dinheiro, não é fama, não é propaganda. Amo o que eu faço e já tenho dinheiro o suficiente pra chutar todos os empresários, todas as revistas e qualquer coisa assim. E continuar tirando minhas fotos. O que eu mais quero, de verdade. Julieta Ferreira, você quer se casar comigo?

Leitores, belíssimos leitores. O que vocês acham que ela vai responder? Ela ama ele desde que saíram de Portugal para entrar na revista de moda na Itália, isso faz 3 anos. Ela nunca achava que esse sentimento seria recíproco. É, esse conto tem de acabar com final feliz.

O pedido foi aceito. Eles foram felizes? Seria muito triste de minha parte dizer que eles morreram na viagem de lua de mel ou algo assim. Odisseu continuou sim com seus trabalhos grandiosos e ela sempre foi ajudando-o. Eram uma dupla, um casal. Um artista que entrou pra história. Uma pessoa a ser seguida em caráter, em sinceridade.

Não esqueceriam. Uma viagem normal à uma cidade interiorana da Itália. Um parque. Neve e fotografias.

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2 respostas para Fotografia. Neve? Não, fotografia

  1. Sashimy disse:

    Não tenho palavras para descrever o que este texto passa para as pessoas, você entrar no mundo que está ocorrendo a historia, fantástico, muito bom mesmo, se superando cada dia que passa, continue assim, que com palavras você está tocando os corações das pessoas.

    abraço

  2. Explorador disse:

    Tão raro eu gostar de textos nesses contexots,adoro romances,mas ainda assim sou muito chato com eles e com os meus. E a maneira que você puxa qualquer enredo é sempre muito bom!

    Continue assim …

    =*

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