Capítulo 3 – Progresso


No dia seguinte, Nami levantou mais cedo que o de costume para ir para a pequena biblioteca da cidade. Haredas havia falado pra ela que era a única da região e também onde todos os gênios se reuniam. Isso animou Nami, pensando que assim os gênios pelo menos estabeleciam amizades entre eles. Ledo engano.

Ao chegar na biblioteca velha e xexelenta, Nami viu totalmente o oposto. Nesse lugar havia um espaço somente para os gênios, onde tinha diversas lousas e mesas intermináveis. Ela viu os garotos todos sentados comendo livros enormes, por vezes pegava um gênio aleatório fazendo fórmulas complicadíssimas nas lousas. Nenhum deles sequer falava, comia, bebia e se desconcentrava. Aquele ar era de completa solidão, mesmo tendo uns 20 gênios juntos.                Isso a incomodou ferozmente. Ela começara a entender porque todos aqueles jovens eram loucos.

Saiu dali poucos minutos depois de ter terminado a procura por Ted, ele seria o primeiro exemplo, afinal, Nami até pegou afeição pelo garoto pálido.  Foi até a cidade onde o encontrara e começou a perguntar por ele.

Demorou para achá-lo, começara a desistir quando o achou perambulando pelas barraquinhas na maior cidade dentre as três que havia. Deu um sorriso satisfatório e foi até Ted.

– Oi, pra você de novo.

O garoto olhou, a fitou por alguns longos segundo, virou a cabeça para um dos lados, em interrogação. Depois virou os olhos para ver lembrava da criatura que estava a sua frente. Finalmente falou:

– Ah, a moça do Mar Azul! Não devia esquecer umas coisas dessas. Mas a mente não ajuda muito.

Nami ficou se perguntando como um garoto de 14 anos iria se esquecer de uma coisa tão simples dessa? Logo descartou seu pensamento e se voltou para o garoto novamente:

– Tem um tempo para conversar? Está um tédio hoje.

– Todo dia é um tédio, não reparou?

Nami bufou:

– Deixe de ser irritante, vamos andar, só quero conversar.

O garoto acatou, temendo outro croque na cabeça. Lembrara disso no último segundo. Foram para fora da cidade, como da outra vez, e sentaram em qualquer lugar para se acomodarem.

O garoto curioso logo perguntou:

– Como chegou aqui?

– Alguém me trouxe. E não queira uma explicação, apenas saiba que foi feito por uma Akuma no Mi.

– Estudamos bastante as Akumas no Mi, mas realmente não tenho o que lhe informar sobre algo relevante. Mas…

Ted começou uma explicação louca da qual Nami não fez questão alguma de tentar entender e observou que o moleque começara a dar seus chiliques por começar a pensar demais. Ela interveio no que ele estava falando, perguntando:

– Onde estão seus pais?

Ele parou no mesmo instante, e a olhou. Deu um risinho e respondeu:

– Trabalhando, acho eu. Faz um tempo que não apareço por lá.

– E porque não aparece?

– Porque preciso aplicar tudo que meu cérebro está captando de informação e conhecimento. Acho que a única forma de tirar isso de mim é escrevendo, lendo ou fazendo na prática. Enquanto isso não acaba eu não consigo parar. Eu queria poder controlar isso…

Nami o fitou, triste. Viu que ele entristecera também. Toda aquela dor voltou para a navegadora, como sentira da vez que o viu chorando. Provavelmente foi porque tinha tantas coisas para pensar, escrever, formular que sua mente explodiu. Nami quase chorou e logo depois perguntou:

– Você sabe o que é amizade?

– Uma relação entre pessoas que converge num significado de interesses. Seja ele qual for.

Nami riu, a primeira vez que obtivera uma resposta tão lógica assim. Mas de certa forma, o garoto estava certo. Mas faltava algo. Ela o olhou:

– Você sabe o que é errar?

– Acredito que sim, nem sempre acertamos todas as fórmulas ou teorias.

– Não, pirralho. Estou falando errar com alguém.

Ele pensou…Logos minutos. Não obteve resposta. Nami riu novamente.

– Garoto, acredito que errar com alguém é humano. Sempre cometemos alguma besteira que só percebemos depois de alguém aparecer para abrir sua mente e seus olhos. Normalmente esse alguém é uma pessoa que te quer muito bem. Que te quer por perto. – Nami lembrou de Ruffy dando seu chapéu para ela, lembrando de como descobriu porque a Robin não queria voltar ao bando, da dor de Vivi. – Quando uma pessoa te dá uma esperança, um novo modo de vida, um novo divertimento e uma nova visão, pode ter certeza que essa pessoa é sua amiga. Ter uma resposta lógica para a amizade é a pior burrada que alguém faz.

O garoto olhou obcecado para saber mais daquilo. Olhou para Nami com os olhos brilhando, como se tivesse saindo uma chama dentro de seu ser. Não queria saber por ter conhecimento e sim para sentir aquelas palavras que Nami-san dizia. Queria ter aquilo. A amizade. Nem sequer se importou por ter errado ao descrever amizade.

– Nami-san, no mar azul acontece isso?

Ela olhou para o pirralho e disse, calmamente:

– Não. Claro que existe amizade, claro que tem gente que quer teu bem. Mas lá embaixo é um mundo totalmente diferente desse aqui. Há violência, sangue, mentiras, desconfiança. Para você encontrar as pessoas certas é muito mais difícil. Chega uma hora que elas demoram para aparecer, mas chegam. Tem pessoas que sofrem por anos. Passam por sofrimento constante, seja física, psicológico ou por necessidade. Por exemplo, já imaginou alguém matar sua família na sua frente e ainda te pegar como cobaia para seus interesses? Ou então ficar 3 meses passando fome sem ninguém para salvá-lo? Ou pior, ficar 50 anos na solidão total com os corpos de seus amigos apodrecendo?

Nami simplesmente parou. Nem ela conseguia mais falar uma palavra, colocou sua cabeça entre os joelhos e ficou assim por longos minutos, lembrando de seus amigos. Ela ouviu o garoto lhe chamar, mas sua mente já estava distante dali. Ouviu mais uma vez, duas, três. Na última vez que ouviu seu nome, se virou para o garoto, que estava de pé. Ele chorava como daquela outra vez – “Eu o torturei” – Foi o que pensou a navegadora.

– Então…Nami-san, será que você entende o que é passar na sua mente informações desconexas e mesmo assim você conseguir definir uma explicação pra isso? É como se fossem vozes vindo em minha mente. Me perturbam. Isso é sofrer? Eu não quero mais isso…

A palidez dele piorou mais ainda com as lágrimas e os soluços. Nami no mesmo momento levantou e o abraçou, dizendo que todo aquele sofrimento acabaria, pois ele acabara de conhecer uma amiga. “Um garoto de apenas 14 anos, solitário, perdido e quase louco”

Os dois ficaram ali por longas horas, até o garoto parar de soluçar.

**

Algumas semanas se passaram desde do dia em que Ted chorara. Depois daquela tarde, os dois passaram a se ver muito mais e o moleque passou a ter menos chiliques e tiques  e parecia até um jovem normal. Nami também observou a melhora do pirralho e colocou em prática algumas pequenas coisas com os outros gênios. Ted a ajudou muito nisso e logo depois ela nem precisava fazer mais nada. Entre os gênios havia conversas, amizades, risadas e descontração. Talvez nem tudo tenha se resolvido, mas a melhora era clara. Isso forçou Nami a estudar ainda mais, até porque, os gênios mais jovens ajudavam ela sempre que os velhinhos estavam ocupados ou quando simplesmente Nami queria visitá-los. Não havia nem um ano que estava ali e parecia estar em casa. Até que Ted veio conversar com ela.

– Nami-san, eu agradeço mesmo. Por tudo que você me proporcionou. Nesse tempo, todos os habitantes viram a melhora e também começaram a nos ajudar. Nos deixar isolados e com todos os mimos só pioravam as coisas. Agora eles conversam com a gente também e não nos tratam como loucos, apesar de eu achar que somos um pouco sim.

Nami somente levantou a sobrancelha se perguntando o que estava errado naquilo. Mas ficou imóvel.

– E…Eu queria te dizer que tomei uma decisão. Semana que vem estou partindo para o Mar Azul.

Isso pegou a navegadora de sopetão. Ela nem formulou palavra alguma em sua mente. Nada surgia, na verdade.

– EU já convenci meus pais. Acho que eu não fui feito para me tornar um gênio em Weatheria. Queria compartilhar todo meu conhecimento com outras pessoas. Quero me conectar com outra vida.

– Você sabe que isso é perigoso. – Finalmente Nami abre a boca, alertando-o.

– Acredito que seja mesmo, mas eu tenho minhas armas. – Quer dizer, sua inteligência – Vou lutar para encontrar as pessoas que eu pretendo seguir viagem e chamar de amigos. Não que eu não os tenha aqui…Não sei explicar…Só quero sentir isso na pele.

Nami riu, mas ainda achava aquilo insanidade. Como ia impedir um sonho de um garoto gênio? Ted sabia onde estava se metendo.

– Só lhe digo uma coisa, não seja ingênuo e confie em todos a sua volta naquele lugar. Tome cuidado.

– Tá bom, mas eu ainda estava pensando…Acho que antes de ir direto pro Mar Azul eu vou passar em algumas ilhas do céu. Mais conhecimento, entende? Eu já sei como vou descer mesmo.

– Claro – Disse Nami, sorrindo com os dentes amostra – E se passar por Sky Piea, dê um alô para o Pagaya e sua filha e para o Gan Fall por mim. 

– Gravado na mente. – Ted sorriu. Como um garoto normal.

A semana passou voando e a despedida tinha de ser feita. Após muitos aplausos e boa sorte ao garoto, Nami o abraçou forte, um abraço de irmã, de amiga. Olhou nos olhos dele com orgulho e disse um até logo. Ele perguntou:

– Vamos nos ver de novo por aí?

– Quem sabe? Você sabe como me achar, já lhe contei do bando.

Ele concordou. Pegou suas coisas e começou a trilhar sua viagem sem rumo. Deu alguns passos e se voltou para Nami-san

– Percebi que seu cabelo cresceu. Deixe ele crescer mais.

– Isso vai me fazer ficar mais inteligente?

– Pelas probalidades…Não. Mas vai melhorar de qualquer forma.

Ela riu e ele acenou com a mão. Finalmente deu às costas e sumiu no mundo. Seria conhecido como um dos homens mais inteligentes do mar azul 20 anos mais tarde.

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