Missão


Michelle subia as escadas de seu condominio, morava no 4º andar. Tinha elevador no edifício, mas preferiu subir as escadas para esconder a decepção, a tristeza e a angústia. As pessoas não costumavam vê-la assim e por isso acabariam perguntando e se metendo na vida alheia, ela odiava isso e nesse momento queria ainda mais distância de explicações para o ocorrido.

Ela bufou algumas vezes, tentando achar alguma resposta. Elas não vinham, estalava em sua mente apenas perguntas simples como: “Por quê? O que aconteceu? O que é isso? Afinal por quê???”

Continuava a subir, desolada. O percurso das escadarias normalmente era curto, mas hoje era um dia especial. A loira parou 3 vezes antes de chegar ao 3º andar para colocar hipóteses na mesa. Surgia algo como: Se não tem resposta, eu sou a fracassada. Eu que errei. Todas aquelas palavras, na verdade…

*

 – Pare de achar que não é capaz, Fifi! – Orlando sempre a chamou assim desde do ginasial, pois Michelle sempre teve dificuldades de falar palavras com f  e principalmente a sílaba “fi” – Isso não era do seu feitio, você até tinha uma personalidade forte e séria demais pra sua idade.

– As barreiras que eu irei encontrar não são fáceis de passar.  É algo muito difícil e talvez eu tenha que desistir e aceitar coisas que hoje eu não aceito. Tenho medo disso.

– As barreiras estão aí para as pessoas ultrapassá-las. Você e muita gente tem a oportunidade de mudar o rumo de muita coisa, qual o problema de encarar esse problema e essa podridão mundial e ser lembrada para sempre? Mude, revolucione. Eu estarei torcendo.

Ela riu, docemente. Seus olhos expressavam pensamentos confusos, duvidosos demais para quem já tinha ajudado tanta gente e já era lembrada por uma grande parcela de pessoas. Michelle recuou pela primeira vez, ao pensar que tudo podia dar errado e sua vida acabar.

– Orlando, oq eu faço?

– Lute!

*

Michelle fechou seus olhos castanhos e sentou num dos lances da escada, obviamente ainda não havia chegado ao seu andar. Ela chorou e chorou…e…Chorou. Chorava baixinho, engolindo os frequentes soluços.

*

– Srta. Michelle, peço que prepare o dinheiro como feito no acordo. Se quer tanto uma mudança drástica, sabe que irá ter de vender sua alma. E se quiser comprar de volta… Estaremos com ela aqui na minha sala.

O homem de rosto gordo e velho ria ao telefone. No outro lado da linha, a loira sentia nojo. Não tinha escapatória. Para o bem daquelas pessoas…Ter de passar por isso? A humanidade é tão nojenta que Michelle queria matar todas aquelas pessoas. Medíocres, sujas e malditas.

Ela somente desligou e entrou em seu carro. Havia uma reunião daqui 4horas. Uma parte do dinheiro deveria ser entregue numa mala, e outra, numa conta no exterior. O dinheiro entregue na mala seria o restante da negociação, o que seria aprovado. O Ultimato.

A loira considerava isso uma missão. Não importava os meios, isso iria ajudar. Primeiro fechou os punhos com força e depois trincou os dentes. Estava com raiva, muita raiva. Mas não podia estragar tudo… Iria até o fim!

*

“Lembrar disso é muita tortura. Pare mente, pare de lembrar disso!”

Ela não conseguia mais segurar seu choro. Muito menos se levantar. Até que chegou um rapaz que aparentava ter 20 e poucos anos, cara de menino. Ele ia levar o lixo na lixeira e ouviu os soluços. Não sabia como reagir àquilo, mas decidiu tentar acalmar a moça.

– Ahn…Senhora, calma, calma…É… Por quê está chorando?

Ela continuava…

Ele se ajoelhou e tentou olhar seu rosto, mexeu em seus ombros pra tentar animá-la.

– Venha comigo, vou te dar um copo d’água.

Ela não tinha forças nem pra recusar. O gentil rapaz a levou, abriu a porta de sua casa e a colocou numa cadeira da sala. Como todo homem, não sabia a quantidade certa de açúcar e até chegou a pensar se a mulher consumia açúcar. Pensam tanto no corpo e na saúde que usam até adoçante. Mas resolveu não se preocupar com isso, colcou 3 colheres médias e jogou água.

Já a loira tentava limpar seus olhos e parar de chorar. Apesar disso ser muito difícil no estado em que se encontrava, ela lutava pra parar.

“Eles não merecem minhas lágrimas”

O garoto – moreno, de olhos com cor de mel – lhe deu o copo em sua mão. Ela tomou, sem se importar pro gosto bem doce vindo da água. O Colocou na mesa e se acalmou. Depois de alguns segundos, a primeira palavra:

– Obrigada.

– Não há de quê. Consegue falar agora?

– Sim, estou melhor agora. Mas por favor, não me pergunte nada do que acabou de ver.

O moreno a fitou e respondeu:

– Ok. Você mora em qual andar?

– No andar de cima.

– Vamos até lá então, eu te ajudo.

Os dois foram, de escada. A todo momento ele a ajudava pois ela parecia estar muito frágil, sequer conseguia enxergar os degraus direito. Chegando em sua porta, antes de abrir, virou para o homem que nem sabia o nome.

– Obrigada, de novo.

– Sempre que precisar é só interfonar, sou do 32 caso você não tenha visto.

– E seu nome?

– Orlando. Não precisa saber meu sobrenome.

Ela fechou seus olhos e colocou uma de suas mãos no rosto. Coincidência?

– O que foi?

– Morreu…

– Ahn?

– Ele morreu… Eu o matei. Quer dizer, eles o mataram. Eu posso matá-los?

Suas lágrimas voltavam, suavemente. Não estava doida, Orlando percebeu isso. Era algo muito pior. Perder alguém nunca é fácil, as pessoas se sentem muito tristes. Ela segurou em sua camiseta, contorcendo o tecido. Ele sem saber o que fazer, fez um olhar triste e baixo e perguntou baixinho:

– Como foi?

Ela olhou em seus olhos, não conseguia enxergar direito, suas lágrimas não paravam de cair.

– Assassinato. Eu mexi numa coisa muita perigosa, e em vez de me matarem logo, matou pessoas que eu amo. Não foi só ele. Foram 5 pessoas mortas.

Michelle falava soluçando, pausando várias vezes para respirar. Não suportava mais aquilo.

Não houve palavras de Orlando. Ele chegou a chorar junto com o desespero dela.

– Foi uma missão. Que eu lutei e perdi ferozmente. Eu achei que pudesse mudar o mundo! Mas nessa minha ambição, pessoas a minha volta morreram. Que merda de sociedade é essa que matam e morrem por dinheiro? Qual o problema em querer ser justa?

– Você fala isso, mas eu tenho certeza que você já salvou muitas vidas. Não se culpe assim. Muitas pessoas guardam carinho por você. Será que ajudá-las assim não é o bastante? Não tente mudar o mundo sozinha. Não carregue esse fardo. Lute, mas não com essa farda. – Ao terminar de falar, ele se lembrou de uma música famosa e pensou por alto – Nossa, eu amo essa música.

Ela o empurrou e limpou suas lágrimas, o que não adiantou muito pois voltou a chorar. Ela olhou pra Orlando e gritou, no meio do hall

– O que você entende disso?

– Não sei exatamente do que você tá falando. Mas eu entendo o que é mudar o mundo. Se todos quisessem isso hoje, pode ter certeza que tudo seria melhor. As pessoas não teriam ódio da outra como vemos, não consumiriam coisas inúteis como consomem, não buscariam mais e mais dinheiro. Eu mudo o meu mundo, e tenho orgulho disso!

A loira colocou suas mãos na cabeça, bagunçando o cabelo. Tentava sair daquele mundo real insuportável e não adiantava. Ela chorou, chorou…e…Chorou. Sua missão…Falhou.

– Então, não se culpe… Apenas siga em frente, fazendo o bem do mesmo jeito que fazia àquelas pessoas que sorriam pra e por você. Mudar o mundo é um fardo grande demais pra carregar sozinha…

Ele a olhou por um tempo, a loira que ele admirava todo dia, que via trabalhar e se esforçar, que via crianças sorrindo ao lado dela quando ele ia correr no parque. Saiu do hall e desceu as escadas. Iria esperar ao lado do interfone toda vez que chegasse em casa. Queria ver aquele sorriso de novo.

Uma semana depois ela se suicidou. Uma dia antes disso, havia interfonado para Orlando e avisado que havia uma carta para lhe dar. Ela desceu as escadas, e enfiou a carta por de baixo da porta. Ele viu esse a carta surgindo em sua porta e corre para abri-la. Ela estava triste, mas sorriu. Uma única palavra:

– Obrigada.

Ele a abraçou instante depois e disse:

– Lute!

– Eu vou tentar. Juro. Mas quero que você leia atentamente a carta e faça a justiça por mim. Eu já não tenho forças pra isso.

No dia seguinte, após ver o corpo estirado no chão de seu quarto, policiais perguntavam à ele, ali mesmo ao lado do corpo.

Aquele sorriso nunca mais seria visto. Mas ao contrário disso, com as informações que Orlando tinha, ela mudou o mundo. Justiça foi feita. Aqueles lá…Foram presos e tempo depois souberam da morte de cada um.

Essas mortes são um mistério até hoje.

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